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Entrevista DIY Magazine completa e traduzida

Ontem a revista DIY anunciou em suas redes sociais que os meninos da The 1975 vão estampar a capa da edição de junho nas bancas. Com uma entrevista incrível, a banda explicou sobre a nova era e principalmente nos contou o que vem pela frente. Confira a matéria:

Eles são uma das maiores bandas do mundo, prestes a lançar uma das campanhas de álbuns mais esperadas do ano. E esta é a primeira entrevista deles sobre isso. Bem-vindo à nova era do The 1975.

Atualmente, há aproximadamente 3.000 pôsteres colados em Londres, anunciando um álbum que ainda não existe. Se você não os viu por lá, você os verá em sua cidade, no Instagram ou no Facebook. Eles são enigmáticos, cheios de piadas tipo Black Mirror, sobre um futuro que é, na verdade, apenas uma espécie de presente: uma criança usando um óculos de realidade virtual com a frase “A MODERNIDADE NOS FALHOU”. Um grupo de pessoas em seus telefones em uma galeria de arte, com uma passagem da Bíblia de Isaías 6: 9-10 (citação que diz: “Faça essas pessoas ficarem calejadas, faça suas orelhas sem brilho e fechem os olhos”). Um cartaz preto liso com uma massa densa de texto cheio de observações sombrias e sobre um moderno “mundo mais distraído”.

Mas são os sete caracteres impressos no canto superior esquerdo que as pessoas realmente se importam. E é por isso que estamos sentados com a figura que está no centro de tudo, para começar a decifrar a nova era altamente esperada do The 1975: uma era centrada em torno de um álbum que ainda está “longe de finalizado”. Seria um golpe insano, se não fosse tão ridiculamente a cara deles. “É apenas uma parte do jeito que fazemos as coisas, então reclamar ou celebrar parece um pouco sem sentido. Nós vamos fazer isso. Nós sempre fazemos isso”, diz Matty Healy. “É uma viagem, cara. A maior quantidade de cartazes em torno de Londres são os nossos cartazes. Há um em London Bridge e eu passei por ele em um Uber e pensei: “Sou eu. E isso é o anúncio de um álbum que eu não terminei. O que eu estou fazendo!?'”

A pressão, ao que parece, nunca foi realmente um fator para o quarteto (completada pelo guitarrista Adam Hann, o baixista Ross MacDonald e o baterista George Daniel). No ano passado, durante um show no Latitude, Matty consistentemente repetiu nos intervalos entre as músicas “The first of June, The 1975” (Primeiro de Junho, The 1975) – um aceno à história da origem do nome da banda, mas também aparentemente uma sugestão de data de lançamento. No dia seguinte, eles postaram um vídeo no Instagram mostrando o letreiro de néon do segundo álbum “I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it”, sendo desligado e substituído por uma nova frase, “Music For Cars 2018”. No início daquele ano, Matty havia dito a Zane Lowe, do Beats 1, que o nome – anteriormente o título de um EP do início de 2013 – seria o título do próximo disco.

Antes mesmo de começarem a gravar, a banda colocou tudo não apenas em seus lugares, mas também nos olhos do público, os deixando prontos para serem discutidos e dissecados. É uma maneira intensa de trabalhar e que pode assustar muitas pessoas. “Eu acho que sempre colocamos um pouco de pressão em nós mesmos porque nos empolgamos. A mentalidade indie é que quanto mais as pessoas ficam empolgadas, menos elas se importam. Foda-se isso!” Ele sorri. “Quanto mais as pessoas ficam empolgadas, mais nos importamos. Se você não se importa, por que diabos [qualquer outra pessoa] se importaria?” É seguro dizer que o vocalista não está naquela vibe.

Isso também não importa mais, porque de qualquer maneira, agora quase toda essa informação inicial mudou, pelo menos parcialmente.

A essa altura, você saberá que o primeiro de junho não é, conforme previsto por fãs animados na internet, a data de lançamento de um álbum. Em vez disso, quando essa edição chegar às ruas, você já poderá ouvir o primeiro single intrigantemente abrasivo “Give Yourself A Try” – um som chocante com riff repetido e uma bateria eletrônica 808. O álbum em si, nos é dito, vem em outubro. E quanto a “Music For Cars”?

Então o que é?

“Essa é a única coisa que posso dizer. Entre eu e você, eu nunca diria algo tão vago quanto “Music For Cars” é uma era, mas é o que eu posso fazer para a entrevista…”

Então, “A Brief Enquiry Into Online Relationships” é – a frase que foi escrita nos pôsteres recentes da banda – o álbum?

“Isso é … um álbum.”

Mas não é esse álbum?

“Isso é… esse álbum.”

Então lá vamos nós. E por que a mudança de planos? “Porque as coisas sempre mudam, cara! Porque muitas coisas mudaram desde quando começamos a fazer isso. Há muito a dizer, mas isso é tudo que posso dizer por enquanto. Este é um momento muito importante para o The 1975 e… sim”, ele suspira, rindo de seu próprio fraseado grandioso. “Que idiota. Mas eu tenho que ser esse idiota por enquanto.”

Tomado essa fala, você sente que muitas pessoas viram Matty como “esse idiota” por um tempo. É preciso muita ousadia, afinal, para nomear um disco tão extravagantemente quanto “I like it when you sleep…”. Mas há algo muito mais autoconsciente nele do que apenas outro Johnny Borrell com uma sobrecarga de ego. Ele pode abraçar o pretensioso, mas há um conhecimento de tudo que o mantém um passo à frente. “Comigo sempre foi assim: como você pode criticar alguém que critica a si mesmo?” Ele encolhe os ombros. Em outras palavras, se você estiver chamando-o de algo, é provável que ele já tenha se chamado daquilo primeiro.

Hoje, sentado na varanda de um hotel incrivelmente chique em East London, o cantor está usando uma cabelo loiro branqueado (que ele logo tingirá de laranja brilhante), uma camisa de malha estampada com logos de Jean Paul Gaultier, um casaco de couro preto, botas de cowboy extravagantes e um óculos de sol laranja dos anos 90. Não é difícil descobrir qual pessoa é a estrela pop nesta sala em particular. Matty, no entanto, não age com uma diva estereotipada que os clichês ditam. “Olhe para mim! Eu pareço com Julian Clary!”, Ele grita, no meio da nossa conversa; para um homem com cerca de um milhão de seguidores nas mídias sociais e uma roupa que provavelmente vale alguns meses de aluguel, há mais fatores adoráveis sobre Matty do que você imagina. É por isso que ele pode se safar dessa descrevendo uma viagem recente como “ter absorvido um pouco de namaste” – “você tem que escrever isso exatamente do jeito que eu falo, a propósito, eu posso parecer um otário completo, mas eu sou apenas uma bagunça”, ele ri. E é também por isso que ele desenvolveu a reputação de ser o sonho dos jornalistas. Se a maioria das pessoas em sua posição, é elevada em um grau compreensivelmente alto, então Matty é o oposto: um conversador gregário e excitável, com uma tendência a vomitar frases com pouco ou nenhum senso de autocensura.

Tendo ficado escondido escrevendo o terceiro álbum em Oxfordshire desde novembro, hoje ele está hiperativo. Referenciou as teorias do célebre autor e orador David Foster Wallace, os esquetes de Monty Python e os problemas da China maoísta em um espaço de cerca de dois minutos, seu cérebro está claramente agitado com milhares de pensamentos e idéias acontecendo de uma só vez. Depois de um alarde inicial de dez minutos que está com dificuldades para respirar, ele faz uma pausa: “Desculpe, estou na floresta há seis meses. Alguém me faz uma pergunta e eu solto um “woohoo!”

Isso significa que falar sobre o próximo passo de 1975 é ainda mais denso, grandioso e detalhado do que você poderia esperar. Matty pode estar sendo cauteloso em relação aos detalhes, mas sabemos que ele está entusiasmado com o lirismo dos conceitos por trás de tudo.

Ao retroceder um ano, no entanto, e as coisas eram bastante diferentes.

No final da campanha para o último disco, Matty “não estava em um bom lugar”. “Eu estava passando [por alguns problemas] e também pensando, porra, eu preciso fazer um álbum fora disso, sem ficar tipo ‘pobre eu'”, diz ele. “É tão chato quando você ouve as pessoas fazerem isso, porque elas se tornam não-confiáveis. Há uma ótima piada de Jim Carrey em que ele diz: “Ninguém sobe ao palco e diz: ‘Porra, ménages são um pesadelo, não são?'”.

No final desse álbum eu estava muito preocupado com a verdade daquilo que eu estava dizendo e a verdade era que eu estava me transformando. Eu estava tocando em grandes festivais. Eu estava me tornando uma estrela do rock, objetivamente.

Quando ele traz o assunto pela primeira vez, ele explica que, para combater isso, ele foi para Barbados por um período prolongado “para realmente fugir”. Esse período, no entanto, surge novamente na conversa um pouco mais tarde.

Há uma linha em “Give Youself a Try”, perguntamos, onde você menciona “se viciar em drogas”. Isso aconteceu? Você diria que você teve um problema com isso? “Sim! Oh sim! Completamente!” Ele balança a cabeça, antes de parar e sair para checar com seu agente sobre continuar o assunto. Ele volta. “Então, quando fui para Barbados, na verdade fui para a reabilitação. E eu deveria ter falado de uma vez porque me faz soar como se eu não quisesse dizer isso, mas eu tenho dito a qualquer um que quiser escutar. Eu fui e trabalhei nisso por sete semanas. Eu não fui arrastado para a reabilitação, eu estava exausto e com o risco de ser outra estatística na crise de opióides que atingiu os Estados Unidos, porque é assim que lidava com as coisas na turnê. Eu adorava entrar no palco e conversar com 12.000 pessoas. Eu só não gostava de voltar para o meu quarto de hotel e ficar sentado sozinho por mais três horas e depois ir para a cama quando quisesse, eu não sei, mudar de cultura é algo ridiculamente grandioso”, ele ri.

“E eu sabia que não iria me desintoxicar, então fui embora e fiquei sóbrio. Eu não estava indo lá para ter um resultado rápidp, eu não tinha um problema com bebida ou qualquer outra coisa, eu era apenas quimicamente dependente de uma substância e eu não queria fazer um disco como um viciado. Quem iria querer ouvir isso?”

Sabendo que as pessoas provavelmente pegariam nessa parte da música, houve alguma hesitação em incluí-la? “Não, porque eu não tenho mais nada comigo. Eu não tenho uma visão de mundo particularmente arredondada. Eu sempre falo sobre eu mesmo e as pessoas pensam ‘Oh, há um pouco de mim nisso’. E então se você faz isso o suficiente, toca o mundo”, continua ele. “Isso é o que as pessoas querem. Isso é o que eu quero também. Me diga a porra da verdade. Se você vai se importar tanto com toda essa besteira pretensiosa e todos esses anúncios, então vamos fazer isso. Vamos tornar esta troca realmente honesta e eu, como fã, me entregarei a você e não a julgarei se você me disser a verdade. E isso contribui para uma arte mais interessante, e é por isso que estou aqui, por que decidi estar aqui.”

São essas declarações apaixonadas que fazem do The 1975 uma banda que causa tanta devoção. Entregue-se a Matty e sua visão, e eles lhe darão, muito mais do que a maioria, em troca.

Pegue todas as citações e referências em toda a campanha até o momento. Em vez de introduzir um álbum inteiramente de ficção científica, como você pode suspeitar, o tema é realmente desenhado a partir de uma faixa, e é extrapolado para um fio de pistas para as pessoas seguirem. Tudo faz parte do mundo rico e em constante evolução que a banda tenta e cria a cada novo movimento. “Eu estou entediado de fazer campanhas para onde eu vou tipo, ‘Pessoal, é assim que meu álbum é’. Eu queria que fosse algo esotérico, muito específico, muito instigante”, explica o cantor. “Eu sei que as pessoas que estão em outro ponto de suas vidas, que são mais bem lidas do que eu, não entram neste portal de descoberta para descobrir mais ideias que poderiam ser esclarecidas o que eu faço referência na música. Mas isso realmente meche com nossos fãs, e isso amplia nossa comunidade e faz as pessoas falarem sobre literatura e essas coisas. O material que fazemos é sempre para servir nossos fãs.”

Em vez disso, “A Brief Enquiry…” parece destinada a mostrar um coração muito mais humano e falível do que esses movimentos de imaginação precoce podem sugerir. Claro, há uma explicação excessivamente complexa sobre a renúncia das tendências prévias de compositores pós-modernos (“sempre referindo-me a mim mesmo, sempre referenciando outra música”) para explicar tudo, mas realmente se resume a um ponto muito mais simples: “Tudo é tão irônico porque a ideia de sentimento é mais difícil de lidar. Ser humano é mais difícil do que ser irônico”.

Numa época em que a sociedade está politicamente mais polarizada do que nunca, e o medo de ser queimado publicamente nas redes sociais faz o mundo pisar em cascas de ovo, The 1975 quer explorar o sentimento real e humano no centro de tudo. “Você olha para a direita, e a direita tem nazistas, então colocamos isso em uma caixa e sabemos que não é um bom lugar para ir. E então você olha para a esquerda e tem todo esse grupo de pessoas que não aguentam mais nenhuma nuance. Então todo mundo está com medo. Eu estou assustado. Eu acho que as pessoas têm medo de sentir, e elas não sabem o que dizer. Então, acho que ir mais fundo é de onde vem esse álbum”, explica Matty. Mais tarde em nossa conversa, esses medos se manifestam de uma maneira que seja ecoada nos olhos do público. “Deixe-me perguntar sua opinião sobre algo”, ele corta. “Eu posso ser bastante tátil, ou então eu estou sendo iludido ou paranóico, seria bom para mim sempre ter um acompanhante em entrevistas se a jornalista é mulher?” ele questiona. “Estou preocupado em ser eu mesmo e ficar apenas conversando. Eu sei que as mulheres são feitas para se sentirem desconfortáveis com homens, então é meu dever moral dizer, você gostaria de outra pessoa por perto? Ou isso me faz parecer culpado? Eu não sou um fanático e não sou racista e não sou sexista, mas e se houvesse algum escândalo ridículo que não fosse verdade, mas conseguisse realmente me descreditar? Eu me preocupo com isso porque eu nunca pensei sobre isso [antes]…” Na verdade, a coisa mais ousada que Matty faz durante a hora em que estamos com ele é oferecer para a DIY seu grande casaco caso estivéssemos com frio.

É o mundo moderno em toda a sua complexidade confusa que está sendo trazido para a mesa em ‘A Brief Inquiry…’ – um álbum que Matty descreve como tendo “uma ansiedade que ele não teve no último álbum, foi definitivamente densa, mas acho que foi um disco bem bonito. Esse próximo não é tão simples”. Essa ansiedade está presente em ‘Give Yourself Try’ e em suas guitarras “abrasivas” e está no álbum que o cantor cita como tendo “muito pós-punk em todo lugar”. Ele se inclina e levanta uma sobrancelha conspiratória: “E há jazz no álbum.” Oi? “Há lounge”, ele balança a cabeça.

Não entre em pânico, no entanto, porque o LP3 também está definido para incluir algumas das músicas mais agitadas da banda. “Eu quero que a música seja importante ou que a música seja realmente boa. A música pode dizer algo e isso é incrível, ou a música pode ser muito, muito boa e não precisar fazer as duas coisas ao mesmo tempo”, afirma. “‘Into You ’de Ariana Grande precisa ser uma música pop, porque se ela estivesse cantando “Há um problema em Gaza…”não seria uma boa música. Há certas [vezes] em que eu pensei, bem, isso é como uma canção de amor, então por que eu não a deixo sarcástica e irônica? Mas agora eu gosto, por que não apenas escrever uma música muito bonita?”

E assim, quando entramos na próxima era do The 1975 e em sua odisséia atormentada pela ansiedade, cheia de beleza e pós-punk-jazz-pop (sem surpresa, este parece estar pronto para ser cheio, ‘I like it when you sleep’ também tem 17 canções), como Matty está se sentindo? “Eu vou ser realmente sincero com você, estou muito nervoso”, ele responde, surpreendentemente para um homem que afirmou anteriormente que o terceiro álbum de sua banda teria que ficar entre os grandes LPs de todos os tempos. “Sim, isso foi muito bobo”, ele ri. “Eu citei… não citei The Smiths?” Você citou ‘OK Computer’, nós o lembramos, quando ele coloca a cabeça nas mãos com um suspiro divertido.

Então… quais são as chances?

“Bem, se você pode dizer o que seu álbum é ou não é antes dele sair, então eu acho que você está falando merda”, diz ele, se animando. “Eu sou um ser humano e às vezes eu estou cheio de confiança e às vezes eu estou me detonando. E eu posso sentar aqui e dizer que não me importo com críticas, e que eu acho que esse álbum fará mais sentido daqui a alguns anos, e que quando as pessoas realmente odeiam The 1975, normalmente é porque elas não entenderam. Mas dizer que eu não quero que as pessoas amem isso seria mentira. ”

O primeiro de junho. The 1975. É apenas o começo.

Agradecimentos especiais ao Henrique Otto, (@riverscaprio), que traduziu a matéria completa e nos enviou <3